Categoria "LITERATURA"

5 livros que tem tudo a ver com a Primavera

Em 09.10.2016   Arquivado em LISTINHAS, LITERATURA

 

O post de hoje está um pouco atrasado porque a primavera começou no dia 22, mas tudo bem!

Resolvi fazer uma listinha de leituras pensando no clima da primavera- que, na minha opinião, é a melhor estação do ano. Primavera é o tempo de florescer, de mudar e de renovar. Existem muitas histórias com temáticas nesse sentido e que, portanto, tem tudo a ver com a Primavera 🍃🌺

Todos os livros indicados abaixo são muito queridos para mim. Foram leituras que me inspiraram e me surpreenderam. Tenho certeza de que vocês também vão amá-las 💛

Então, vem!  📚

1- Pollyanna

Pollyanna é uma história de superação. Ela demonstra a força do pensamento positivo e da perseverança.  Uma situação – mesmo a mais horrível de todas – tem sempre dois lados: o negativo e o positivo. Para qual devemos direcionar nosso olhar?! Pollyanna diria que é para o positivo. E é assim que nossa órfã  – obrigada, pelas circunstâncias a ir morar com sua detestável (e amargurada) Tia Polly –  muda tudo e todos. Por meio de um simples jogo, chamado de Jogo do Contente, ela mostra que existe sempre algo capaz de nos alegrar. Nada, nem mesmo as maiores cruezas da vida, são motivo para o desespero.

É um livro inocente e singelo que marcou, definitivamente, minha infância. Foi o primeiro livro, com mais 100 páginas, que eu li. Na época, tinha 9 anos. E muito mais do que “o primeiro”, foi um dos melhores. É um clássico que vale ser lido e relido por todas as gerações, na medida em que ele contém mais do que uma história inspiradora: ele nos aponta uma filosofia de vida.

 

2- O Jardim Secreto

 

O Jardim secreto foi um livro que, também, marcou minha infância. Li e o reli muitas e muitas vezes. Infelizmente, ainda não o tenho na versão física, porque sempre pegava emprestado na biblioteca da minha cidade. Mas já está na lista  de “novas aquisições”, juntamente com todos os outros livros da Frances Hodgson Burnett.

A Frances é uma escritora fantástica. Já li todos os seus livros e devo dizer: ainda que suas histórias sejam voltadas ao público infantil,  os ensinamentos, tirados a cada entrelinha, valem para todos, independente da idade.

O livro conta a história de três crianças: Mary, Colin e Dickon. Quando a mimada Mary perde seus pais na Índia, ela volta à Inglaterra para morar com o soturno tio Craven, seu único parente vivo. Lá ela conhece Dickon, o irmão da criada, e seu primo doente Colin, filho do Sr. Craven. Ao contrário de Mary, Dickon é dócil e simples. Já Colin é, assim como Mary, mimado e apático. Usando sua doença como um escudo, ele maltrata a todos.

Um dia, Mary descobre a chave para o jardim de sua falecida tia. Embora saiba que a entrada para o Jardim é proibida, ela resolve se aventurar nele. Logo, conta sobre a chave para Dickon e, depois, para Colin. Ambos juram segredo e, junto com Mary, passam a cuidar da Jardim, semeando e fazendo com que ela floresça novamente. E, conforme vão curando o Jardim, eles curam a si mesmos.

O Jardim secreto é um clássico e, assim como o livro “Pollyanna”, ele merece ser lido por todas as gerações.

3- P.s Eu Te Amo

Provavelmente, todos já devem ter ouvido falar do filme homônimo que foi baseado nesse livro. A história do filme e do livro são, essencialmente, parecidas. Mas existem algumas boas diferenças na história. Não sei dizer qual dos dois é melhor, porque ambos, filme e livro, são lindos.

P.s Eu te amo é um romance que conta a história de Holly, uma mulher que acabou de perder o marido para um câncer no cérebro. Holly e Gerry eram almas gêmeas. Não que nunca brigassem… não, eles brigavam. Mas também se reconciliavam. Eram apaixonados. E tinham planos para uma vida inteira. Até que Gerry morreu.

Poderia até parecer uma hipérbole, mas a verdade é que Holly se viu perdida, sem qualquer rumo à vista, com a morte do marido. Até que, na proximidade de seu aniversário, chega uma carta de Gerry. Com o intuito de ajudar Holly a seguir em frente, ele explica que  novas cartas chegarão durante, mais ou menos, o período de um ano. E conforme as cartas vão chegando, Holly se depara com uma lista de coisas a serem feitas – coisas que farão com que ela se permita ser feliz e viver novamente. É claro que Holly não concorda, à primeira vista, com alguns pedidos do marido (como não se sentir culpada por encontrar um novo amor, por ex.). Mas elas os faz. E vida continua.

P.s: Eu te amo é um livro lindo e encantador. Ele mostra que, embora tragédias aconteçam, recomeços são necessários. O choro e o entorpecimento podem ajudar no primeiro mês, mas eles devem ceder passo ao “já é hora de seguir em frente”.

Por isso, é claro, P.s eu te amo tem tudo a ver com o significado da Primavera.

4- Eleanor & Park

Antes de mais nada, só posso dizer que eu me apaixonei, perdidamente, por  Eleanor & Park.  Li sem parar. Em casa, na faculdade (nem essa ficou à salvo!), no carro e na manicure. Eu, simplesmente, não conseguia largar o livro sem antes termina-lo. Existe algo de viciante nesse livro, mas não sei dizer exatamente o que. Apenas posso afirmar que a  história é incrível, engraçada e, ao mesmo tempo, triste.

Eleanor é uma garota sonhadora, inteligente e ingênua. Gordinha, ela tem cabelos armados, cheios de cachos de um ruivo intenso. Possui um jeito único de se vestir: roupas largas, velhas e masculinas. E ela não faz isso apenas por uma questão de estilo, mas porque não tem grana para comprar roupas melhores. Mora com a mãe, os irmãos e o padrasto abusivo em uma casebre minúsculo.  E tenta levar a vida como pode.

Park é um bonito garoto de descendência coreana. Não é popular, mas também não é o esquisitão da turma. Ele, simplesmente, gosta de ficar na sua, lendo seus gibis e ouvindo seu rock n roll.

De início, ele não vai com a cara de Eleanor, quando esta sobe, pela primeira vez, no ônibus da escola. Mas, também, ninguém vai com a cara dela. Com os cabelos armados super ruivos e as roupas largas e masculinas, ela é  a visão mais estranha e desengonçada que todos já viram.

Mas existe algo em Eleanor. Alguma coisa. Um quê que a faz ser diferente de todas as outras garotas, ao menos para Park. E, de forma bastante inusitada, os dois se apaixonam. Mas Park não sabe lidar com a complicada vida de Eleanor:  rejeitada pelos colegas, descuidada pela mãe (que, oras, é também descuidada dela mesma) e maltratada pelo padrasto, nada para a garota é  fácil.

E é nesse turbulento contexto em que eles vão descobrir a ingenuidade do primeiro amor, as agruras da vida e a intensidade de um coração partido.

Em suma, esse livro é simples, mas incrível. A excelência do estilo de narrativa – sutil, doce e cheia de referências pop-  me deixou sem fôlego. Só conheço esta obra de Rainbow Rowell, mas já posso dizer que ela é uma escritora maravilhosa. Eu mal posso esperar para ler os outros livros escritos por ela.

Um pedido para Rowell: por favor, faça uma continuação. Simplesmente, não posso viver sem saber um pouco mais sobre a história de Eleanor & Park.

Se pudesse definir este livro em uma palavra, eu diria: encantador.

5- A Dança da Floresta

Esse livro difere um pouco de todos os outros que indiquei aqui, haja vista que ele faz parte da literatura fantástica.

Ele é escrito pela Juliet Marillier, escritora  que eu adoro. Mestre em contar histórias folclóricas, cheias de romance,  aventura e magia, este livro não poderia  ser ruim.

A dança da Floresta se ambienta na velha Transilvânia e traz informações sobre diversos costumes e tradições do lugar. É uma narrativa rica e bastante detalhada.

A protagonista deste livro é Jena, a segunda irmã mais velha. Ela e suas quatro irmãs, a cada lua cheia, fazem sombras com as mãos contra uma pedra para abrir um misterioso portal que desemboca no “Outro reino”. Lá, as meninas participam de uma tradicional festa,  onde dançam com encantadoras e bizarras criaturas fantásticas.

Sim, você não está enganado! Esse livro é, sim, baseado em um conto de fadas chamado “As 12 princesas Bailarinas”.

A história começa a se desenrolar o quando o pai das meninas fica doente e precisa se mudar do castelo em que mora para outra cidade – onde o inverno é mais ameno. E é Jena quem fica responsável por cuidar das outras meninas e, também, da administração da casa e dos negócios.

Entretanto, logo após a partida do pai,  o seu primo César chega ao castelo com a intenção de ser o novo administrador, pois está convencido de que Jena – por ser mulher- não conseguirá honrar as responsabilidades deixadas. Como se isso não bastasse, Jena ainda precisa lidar com a reprovável paixão de sua irmã  Tati por um ser do Outro Reino, chamado Tristan. Este é um ser da noite (algo semelhante a vampiro) e Jena teme que o relacionamento entre ambos possa não acabar bem.

É nesse contexto que Jena deve encontrar força para ser racional com a doença do pai, lutar contra um machismo desmedido por parte do primo e, ainda, velar por suas irmãs. É claro que ela não está sozinha! Conta com a ajuda de seu melhor amigo (e também animal de estimação),  o sapo Gogu, e a sábia Draguta – a bruxa da floresta.

O desfecho deste livro é surpreendente e muda completamente a vida de nossa personagem Jena. Por falar nela, deixe – me dizer apenas isto: Jena é uma personagem que amo. É forte, durona, uma típica heroína de Juliet Marillier.

A história é folclórica. Portanto, se você gosta de conhecer novas culturas, este livro é para você.

 Em suma, a Dança da Floresta é um dos meus livros preferidos. E tem tudo a ver com a primavera…já começando pela capa que, de tão linda, acho que pode ser comparada à uma obra de arte.

Existe continuação do livro. A sequência se chama O segredo de Cybele. Para conhecer mais sobre outras obras de Juliet Marillier, clique aqui.

 

Gostaram das indicações? Conta tudo ❤ 💋

Resenha: Enquanto Bela dormia (Elizabeth Blackwell)

Em 16.09.2016   Arquivado em LITERATURA

Sinopse:

Quando a rainha Lenore não consegue engravidar, recorre aos supostos poderes mágicos da tia do rei, Millicent. Com sua ajuda, nasce Rosa, uma menina linda e saudável. No entanto, a alegria logo dá lugar às sombras: o rei expulsa de suas terras a tia arrogante, que então jura se vingar. Seu ódio se torna a maldição que ameaça a vida de Rosa. Assim, a menina cresce presa entre os muros do castelo, cercada dos cuidados dos pais e de Flora, a tia bondosa e dedicada do rei que encarna a fada boa do conto original.
Mas quando todas as tentativas de proteger Rosa falham, é Elise, a dama de companhia e confidente da princesa, sua única chance de se manter viva. E é pelos olhos dessa narradora improvável que conhecemos todos os personagens, nos surpreendemos com o destino de cada um e descobrimos que, quando se guia pelo amor – a magia mais poderosa do mundo –, qualquer pessoa é capaz de criar o próprio final feliz.

 

O livro “Enquanto Bela dormia” é uma releitura – como o nome já sugere- do  conto de fadas “A Bela Adormecida”. Porém, não se enganem! Uma das grandes façanhas de Blackwell foi conseguir transformar esta história, já tão popularizada e adaptada, em algo contemporâneo e original. Isto porque o livro busca a essência do conto de fadas, mas, ao mesmo tempo, dá para ele uma dose de realidade,  tornando-o mais consistente  aos nossos olhos.

As mudanças já começam na forma de narrativa da história, que é contada em primeira pessoa. Nossa narradora e, também protagonista, é Elise, a criada.  Esta inovação torna a história muito mais interessante e atípica, haja vista que dificilmente veríamos um pretenso conto de fadas ser contado – e ter como protagonista- uma criada. Os papéis principais são sempre reservados à realeza, e não o contrário.

 

“Não sou o tipo de pessoa sobre quem se contam histórias. Os que têm origem humilde sofrem suas mágoas e comemoram seus triunfos sem serem notados pelos bardos e não deixam vestígios nas fábulas de sua época.” (Pág. 12)

 

Elise vem de origem humildade. Criada em uma fazenda pobre e maltratada pelo seu padrasto, o tradicional destino da personagem seria se casar aos 16 anos com um homem que tivesse um pedaço de terra mais ou menos fértil e parir uma penca de filhos subnutridos.

Com isso em mente, a mãe de Elise buscou aspirações mais altas para a filha. Tendo ela mesma trabalhado como costureira no castelo de St. Elsip, sabia que sua filha poderia ser muito mais do que a mulher de um camponês. Por isso, ela ensinou à filha tudo o que podia: gramática, literatura, costura e etiqueta.

Aos 14 anos, a vida de Elise muda completamente. A varíola chega à aldeia, levando consigo gado e famílias inteiras. Elise foi a primeira a adoecer, seguida por seus irmãos e sua mãe. Depois de dias ardendo em febre, esta cede e Elise recupera a consciência… só para descobrir que, com exceção do padrasto e de um de seus irmãos, a doença tomou a todos.

Em luto pela mãe e enraivecida pela indiferença do padrasto, Elise deixa  a aldeia e parte rumo à cidade de St. Elsip. Com a ajuda de uma tia, consegue um lugar no palácio e, logo,  galga posições mais altas, tornando-se a criada pessoal da própria Rainha Lenore, de quem gosta muito.

Mais próxima da rainha, Elise passa a conhecer sobre as conspirações do castelo e seus habitantes. Sempre foi sabido por todos que a Rainha Lenore tentou, em vão, dar ao rei um herdeiro. Já desesperançosa, Lenore parte para sua última alternativa: utiliza dos supostos poderes mágicos da tia do Rei,  a manipuladora Millicent. Ninguém sabe como, mas Millicent realmente consegue operar um milagre: nasce uma menina, a quem dão o nome de Rosa.

Embora Millicent tenha conseguido presentear o reino com uma herdeira, ela não o fez pela pura bondade de seu coração. Tudo o que vem fácil, vai fácil.  A tia do rei tem planos. E ela conta com a vantagem de ter um Ás na manga sob a forma da menina Rosa.

O rei, entretanto, percebe as segundas intenções da tia e, tal como acontece no clássico conto de fadas, a expulsa de suas terras. Millicent jura se vingar. E o faz: no batizado de Rosa, ela promete morte à garota num futuro não tão distante.

Flora, a irmã  bondosa de Millicent, jura ao rei tentar manter Rosa, a todo custo, viva. E, assim, a garota cresce sob os cuidados dos pais, de Flora e de Elise, que se torna sua amiga e confidente.

Porém, por mais bonito que tenha sido o crescimento de Rosa, as palavras de Millicent jamais deixaram de ecoar no Castelo. Pouco a pouco, a maldição começa a se concretizar, deixando a Elise um importante trocar de papéis: de humilde camponesa, criada pessoal da rainha e confidente da princesa, ela passa a ser a heroína desta história.

O que eu achei do livro:

Elizabeth Blackwell conseguiu combinar a essência do conto “A Bela Adormecida” com uma história original e, em muitos aspectos, inusitada. Veremos o conto de “Bela” de um ponto de vista absolutamente diferente.  Foi uma jogada de mestre colocar Elise – uma garota humilde, ingênua, mas forte e corajosa – como a narradora. A partir dos olhos sensatos dela, vamos conhecendo St. Elsip e as facetas de seus habitantes.

O livro tende a deixar a “magia” de lado e supri-la com elementos mais realistas. A ciência dá conta de explicar os acontecimentos. Não se deixa quase nada por conta do misticismo. Por isso, por mais que o livro se baseie em um conto de fadas, ele não é um. E acho que é justamente isso que tornou tudo tão original e surpreendente.

Elise é a grande chave para a funcionalidade história. Com ela, temos romance, drama e aventura.

É, sem dúvida, um livro #GirlPower. Nos dois polos, temos fortes personagens femininas, sem as quais o livro não andaria.

A leitura é gostosa e fluída. Não se arrasta em nenhum momento.

Enfim, se você gosta de releituras de contos de fadas ou até mesmo de romances históricos, este livro é para você. Leia-o, vale a pena. 📖 💋

Nota: 4/6 – Bom

Nome do livro: Enquanto Bela dormia

Autora: Elizabeth Blackwell

Editora: Arqueiro

Número de páginas: 364

Resenha: Sobre Meninos e Lobos (Dennis Lehane)

Em 16.08.2016   Arquivado em LITERATURA

Li “Sobre meninos e lobos” (em inglês, “Mystic River”)  há poucos meses atrás e gostei muito. Achei esse livro bastante original, haja vista que ele trata a temática “crime” e “criminoso” de uma forma diversa e inovadora. Por isso, não podia deixar de resenhá-lo aqui para vocês.

A história do livro começa em 1975. Temos três personagens principais: Sean, Jimmy e Dave.

No primeira etapa do livro, somos apresentados à infância destes três garotos. Jimmy e Dave vivem em um bairro pobre chamado Flats, enquanto Sean mora no Point, um bairro de classe média. Desde logo, portanto, é perceptível que a realidade financeira de Sean, em relação aos dois outros garotos, é contrastante, o que torna a amizade deles difícil.

Os garotos se conheceram em razão de o pai de Sean e o pai de Jimmy serem colegas de trabalho. Como os pais se encontram todos os fins de semana para tomar uma cerveja no quintal de casa, a amizade entre os meninos acaba florescendo.

Jimmy é muito impulsivo, o oposto de Sean que é o “bom senso” do trio. Com medo de desapontar os pais que sempre ralaram para lhe dar o melhor, Sean costuma ponderar suas ações. Já Dave é muito tímido e retraído. Afetado pela ausência do pai e pela instabilidade mental da mãe, Dave é um “maria vai com as outras”. Ele jamais irá contrariar os amigos. Tudo o que deseja é ser querido por Jimmy e por Sean. Ele acha Jimmy o máximo, pois aplaude todas as travessuras e gruda no amigo – nas palavras de Lehane –  “como se fosse um esparadrapo” .

A mãe de Sean não aprova a amizade do filho com os meninos, especialmente com Jimmy. Ela vê em Jimmy um quê de delinquência. Sean, por outro lado, não liga para isso: para ele Jimmy é seu amigo. E isso é tudo o que importa.

O momento-chave do livro ocorre em uma tarde de verão. Os garotos, nesse dia, resolvem ir brincar na rua. Como estão entediados, Jimmy começa a imaginar que seria legal se eles pudessem dirigir um carro ali mesmo, pelo quarteirão. Com isso em mente, ele lança uma ideia aos meninos: eles poderiam furtar um carro só para se divertir um pouco, não poderiam? Afinal de contas, ali no Point, na rua de Sean, é comum os vizinhos deixarem as chaves dentro do porta-luvas ou até mesmo na ignição. Tudo o que eles precisariam fazer é pegar as chaves, dar uma volta com o carro pelo bairro, e depois estacioná-lo no mesmo local de antes. Fácil.

Sean, por outro lado, fica um pouco receoso com o que os pais achariam dessa ideia. Por isso, ele a rejeita. Jimmy fica irritado com a covardia do amigo e começa a brigar com ele no meio da rua. Dave, como o grande admirador de Jimmy, toma o partido deste na briga.

Os socos e chutes dos meninos são interrompidos pela rápida visão de um carro, com dois passageiros, descendo a rua ao encontro deles.  Do carro sai um homem grandalhão, que se apresenta como policial, e censura os meninos por estarem brigando no meio da rua. Olhando atentamente para os três, eles pergunta  aos garotos se eles moram naquele rua do Point mesmo. Dave, diferente do amigo Jimmy, não consegue mentir. O homem, então, promete ter uma conversa séria com a mãe de Dave e o manda entrar no carro. Ele, não sem hesitar, entra no carro. E, assim, os homens levam Dave.

 Logo após esse episódio, os meninos contam o que aconteceu para o Sr. Devine, pai de Sean, que questiona aos meninos se o carro era mesmo da policia . Ora, os homens estavam uniformizados? Não. O carro continha o logotipo da polícia? Não. Eles mostraram algum distintivo? Bem, havia um distintivo dourado, mas sem a identificação usual da força de polícia.  Já adivinhando o pior, o senhor Devine liga para a delegacia e descobre que aqueles homens eram, na verdade, sequestradores. Assim, Jimmy e Sean fazem um retrato falado dos criminosos e, com isso, torcem para que Dave seja encontrado e volte para casa.

Ambos os meninos (cada um a seu jeito) se sentem culpados pelo o que houve com Dave. Culpados por não terem impedido o amigo de entrar no carro. Culpados por não terem entrado junto com ele. Eles traíram o amigo.

Três dias depois, milagrosamente, Dave é encontrado. Ninguém quer comentar o que aconteceu com ele, mas todos sabem: os sequestradores eram pedófilos e Dave foi molestado sexualmente. A mãe doente do menino fica feliz com a sua volta, mas não consegue quebrar a barreira imposta pelo o que aconteceu ao filho. Os amigos da escola de Dave zombam do rapaz, chamam -no de “bixa” e dizem que ele gostou do que aqueles homens fizeram com ele. E é assim que Dave passa sua adolescência: em um frenesi para acabar a escola secundária e em uma luta com os seus horrores internos.

O acontecimento daquela tarde de verão e os três dias seguintes a ela afetaram profundamente o Dave criança e o Dave adulto. Veja bem: a família se recusava a conversar com ele sobre o que aconteceu. Os amigos da escola zombavam. O trauma ficou e as consequências dele também.

Jimmy e Sean, apesar de não terem entrado no carro, também carregaram a lembrança daquela tarde na memória.

A segunda etapa do livro começa cerca de vinte e cinco anos depois. Os três rapazes já são adultos e estão  vivendo suas vidas. Apesar de não terem se falado mais depois do incidente daquela tarde, eles são obrigados a se reencontrar em razão de um acontecimento: a filha mais velha de Jimmy Marcus foi assassinada e seu corpo foi encontrado em um parque nos Flats, bairro em que ela morava.  Sean é o policial encarregado do caso de homicídio e Dave, uma das últimas pessoas a vê-la viva em um bar, é um dos principais suspeitos.

 Nessa segunda parte do livro, a narração acompanhará os esforços da polícia para solucionar o homicídio.  É comum, à primeira vista, nós acharmos que “Sobre meninos e lobos” é um tradicional livro policial, em que o foco está, justamente, em desvendar o crime. Entretanto, ele é muito mais do que isso. A questão central é, ao contrário, o psicológico e as escolhas dos personagens.

Sean é um policial competente, mas que teve alguns problemas em seu relacionamento conjugal que afetaram, profundamente, o seu trabalho.

Jimmy é um ex-criminoso. Por muito tempo, foi chefe de uma quadrilha, mas acabou preso. No meio tempo em que ficou na prisão, duas coisas aconteceram: o nascimento de sua filha Kate e a morte da sua esposa doente.  Por isso, assim que Jimmy saiu da cadeia, ele se viu às voltas com uma criança órfã de mãe aos dois anos de idade. A sua filha. Uma filha que ele mal conhecia, mas que precisava dele. E isso foi o suficiente para ele querer tornar-se um homem decente. Trabalhou, casou-se de novo, teve mais duas filhas e construiu uma cafeteria nos Flats.   E agora, anos depois, a sua joia, a sua Kate, foi assassinada. Jimmy tenta colar os cacos que sobraram de si mesmo.

Dave terminou a escola e trabalhou duro. Casou-se e teve um filho. Mas os dois grandes “lobos” que o roubaram (de si mesmo) naquela tarde nunca o abandonaram realmente. Aqueles três dias continuam vívidos em sua memória e ele precisa lidar com os danos que foram feitos.

Nesse sentido, “Sobre meninos e lobos” tenta demonstrar como uma situação mal resolvida pode ser desastrosa. Se não resolvermos o passado, ele volta à nossa porta para cobrar o seu preço.

Em síntese, eu posso dizer que esse livro narra a história de meninos que foram perseguidos por lobos. Tão perseguidos que nunca conseguiram se livrar  completamente dos lobos… até o momento em que os lobos passaram a se confundir com os próprios meninos.

Assim que terminei de ler essa obra de Lehane, eu pensei: “poxa! Que livro real!”. Porque é assim que ele é: um livro inteligente, intenso, sutil e… real. O final é triste. Mas eu acho que ele é adequado para os personagens. Apesar de ser triste e de eu desejar, desesperadamente, que fosse outro, ele se encaixa perfeitamente na história e em suas entrelinhas.

Uma das coisas que mais me surpreendeu foi a forma como Lehane encarou e descreveu a figura do criminoso: ele saiu do clichê e demonstrou que o criminoso nem sempre é o sociopata frio e impiedoso. Criminosos nem sempre são monstros. Muitas vezes, eles são como nós, embora escolham maneiras ruins (e ilegais) de lavar sua honra e resolver seus dilemas.

Termino essa resenha dizendo que quase todos deveriam ler esse livro. Ele, apesar de triste, é original. A narração, na minha opinião, é inteligente e a história, além de muito bem contada, tem uma lição real e interessantíssima. LEIAM!

PS: Nos EUA, o livro se chama “Mystic River” em homenagem a um rio que é importante para alguns acontecimentos da história. Embora o título em português seja muito diferente (Sobre Meninos e Lobos), ele não decepciona.É sagaz e sintetiza bem a mensagem do livro. Para ser honesta, este foi um dos raros casos em que achei o título brasileiro melhor do que o título original.

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