Resenha: E não sobrou nenhum (Agatha Christie)

Em 13.12.2017   Arquivado em LITERATURA

Sinopse: 

 Dez pessoas são convidadas pelo misterioso U.N. Owen para passar alguns dias numa ilha perto de uma aldeia pouco movimentada. Os convidados aceitam o convite e de igual maneira embarcam num barco local para a ilha. Na primeira noite, quando todos já se conheciam razoavelmente bem e conviviam animadamente na sala, ouve-se uma voz vinda das paredes da sala, acusando cada um dos dez presentes de ter cometido um crime, crime esse que apesar de ser despropositado ou inevitavél, levou à morte de outras pessoas. O pânico instala-se e mortes inexplicáveis se sucedem, tendo por única pista uma trova infantil.

O cenário é uma ilha deserta na costa inglesa sobre a qual correm vários boatos. Ela foi comprada recentemente por um milionário. A notícia está em todos os jornais. Mas quem é o comprador? Será alguém famoso?

Dez pessoas convidadas por carta – tendo por remetente algum distante conhecido – para passar uma temporada de férias nessa mesma ilha. Dez pessoas de diferentes setores da sociedade, sem nenhuma ligação aparente, e com um passado culpado que lhes pesa nas costas.

Quando essas dez pessoas chegam a ilha e, mais especificamente, ao casarão no qual ficarão hospedadas durante a temporada, procuram, levianamente, pelo seu anfitrião. Ele não está.

Durante o jantar da primeira noite, os hóspedes são brindados por uma estranha mensagem no megafone. Uma mensagem que os declara culpados, cada um deles, por algum homicídio ocorrido no passado.

Quando a primeira morte dos envolvidos acontece – e a segunda também, logo em seguida – os hóspedes percebem que alguma coisa está errada. Essas mortes não podem ser naturais. E estando a ilha sem comunicação com o continente, e sendo eles os únicos habitantes dela, só há uma possibilidade: o assassino está entre eles. Todos são suspeitos – algozes e vítimas, ao mesmo tempo.

A situação se torna ainda mais misteriosa quando os hóspedes percebem uma importante pista. Os homicídios, em seu modus operandi,  aparentam ter ligação com os versos de uma famosa cantiga popular, que está impressa e emoldurada em todos os quartos do casarão:

Ten little nigger boys went out to dine; 
One choked his little self, and then there were nine. 

Nine little nigger boys sat up very late; 
One overslept himself, and then there were eight. 

Eight little nigger boys traveling in Devon; 
One said he’d stay there, and then there were seven. 

Seven little nigger boys chopping up sticks; 
One chopped himself in half, and then there were six. 

Six little nigger boys playing with a hive; 
A bumble-bee stung one, and then there were five.

Five little nigger boys going in for law; 
One got in chancery, and then there were four. 

Four little nigger boys going out to sea; 
A red herring swallowed one, and then there were three. 

Three little nigger boys walking in the zoo; 
A big bear hugged one, and then there were two. 

Two little nigger boys sitting in the sun; 
One got frizzled up, and then there was one. 

One little nigger boys living all alone; 
He got married, and then there were none.

É neste clima de desconforto e tensão psicológica que se desenrola este brilhante romance policial.

O que eu achei do livro:

É preciso dizer que esta história tem uma premissa verdadeiramente interessante. Só isso já seria suficiente para fazer o leitor comprar o livro. Agatha, no entanto,  vai além,   lançando mão de elementos que não tornam esse livro apenas bom, mas um  verdadeiro clássico atemporal da literatura.

Acredito que o grande triunfo está, justamente, no clima de tensão psicológica que é criado no decorrer do livro. Os personagens estão em uma ilha isolada, da qual não podem sair. O assassino está entre eles, de forma que é quase impossível fazer aliados. Todos são suspeitos. E ninguém inspira confiança.

Há uma sensação de medo e desespero pairando no ar. Cada personagem sabe, intimamente, que vai morrer. A morte é certa. Eles apenas não sabem quando serão excluídos dessa macabra dança de cadeiras.

Gostei muito da forma que Agatha explorou o íntimo de seus personagens. Em alguns trechos do livro, há fragmentos das reflexões de cada um deles.  Somos levados a conhecer, de forma enigmática e indireta, quais os seus arrependimentos, incertezas e desejos.

É por meio desses fragmentos que nós iremos colher as pistas referentes ao nosso assassino. Descobrir a identidade deste se revela uma tarefa complicada. Todos são suspeitos. Todos tem motivos para matar. E todos são capazes de fazê-lo.

Confesso que acertei o mistério apenas em parte. Quando o assassino foi descoberto, eu fiquei um tanto surpresa, mesmo sendo uma leitora atenta e que, normalmente, consegue montar quebras cabeças policiais com facilidade.

Eu sempre quis ler este livro da autora, até mesmo porque já assisti a adaptações maravilhosas dessa história em alguns dos meus programas policiais favoritos. Dou destaque, inclusive e especialmente, à série Miss Fisher’s Murder Mysteries que conseguiu adaptar, de forma esplendorosa, este conto de autora.

E não sobrou nenhum – também é chamado de “O caso dos Dez Negrinhos” –  é um livro que recomendo a todos que gostam de enigmas policiais. Vale a pena.

Nome do livro: E Não Sobrou nenhum;

Autora: Agatha Christie;

Editora: Globo Livros;

Páginas: 399 páginas.