Resenha: O sol é para todos (Harper Lee)

Em 04.11.2016   Arquivado em LITERATURA

Sinopse:

Um livro emblemático sobre racismo e injustiça: a história de um advogado que defende um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca nos Estados Unidos dos anos 1930 e enfrenta represálias da comunidade racista. O livro é narrado pela sensível Scout, filha do advogado. Uma história atemporal sobre tolerância, perda da inocência e conceito de justiça. ‘O Sol é Para Todos’, com seu texto “forte, melodramático, sutil, cômico” (The New Yorker) se tornou um clássico para todas as idades e gerações.

O sol é para todos (To Kill a Mockingbird) é um livro complexo e, ao mesmo tempo, incrivelmente simples. Ele mescla assuntos leves e nostálgicos – como a infância, as férias de verão, a família e a amizade- com assuntos densos e reflexivos – como o preconceito racial e as suas consequências.

“Preferia que você atirasse em latas no quintal, mas sei que vai atrás dos passarinhos. Atire em todos os gaios que quiser, se conseguir acertá-los, mas lembre-se: é pecado matar um rouxinol.

Foi a única vez que ouvi Atticus dizer que alguma coisa era pecado…”

No enredo, o Advogado Atticus Finch é  designado para defender Tom Robinson, um negro acusado de estuprar uma mulher branca. O cenário do livro é Maycomb, uma cidade sulista, rural, pacata e bastante fragilizada economicamente nos início dos anos 1930 (logo após a grande depressão)- época em que se passa a história.

Atticus é um advogado bastante cético. Experiente naquilo que faz, já viu muitas situações darem lugar às injustiças e crueldades. Ora, a sentença do juiz é sempre uma surpresa, porém  é certo que alguns casos são, simplesmente,  mais perdidos do que outros.  Mas, ainda que a voz da experiência grite para Atticus:

– Você não vai ganhar. O réu será condenado, não importa o que você faça. É um caso perdido. Ponto.

Ainda que ela grite e esperneie, ele, Atticus, não hesita em pegar o caso para si. Ele não hesita em elaborar a melhor defesa que um réu poderia pedir. Ele não hesita em estudar o caso até altas horas da noite, procurando brechas e soluções legais. Porque, assim é Atticus: ainda que conheça a realidade dos tribunais com a palma de sua mão, ele  é leal aos seus princípios. Tudo é uma questão de princípio, afinal.

Atticus tem dois filhos: o mais velho, chamado Jeremy (Jem), e a caçula Jean Louise, apelidada, gentilmente, de “Scout“. E é por meio dos olhos dessa menina de 6 anos que iremos conhecer o ambiente de Maycomb e a história de Tom Robinson.

É verdade que a criança tem um frescor que a diferencia de todos os outros seres. Ela é inocente e, ao mesmo tempo, curiosa. Questiona o porquê de tudo e de todos. E o mais importante: vê as coisas com mais naturalidade. Percebe o mundo como ele realmente é e não como as pessoas dizem ser. Antes de uma criança ser doutrinada pelos pais, ela enxerga com mais clareza. Não existem preconceitos que corrompam sua visão. Por isso, é brilhante contar a história de “O sol é para todos” segundo a visão de Scout. Na verdade, acredito que essa foi a jogada de mestre de Harper Lee.

Na primeira metade do livro, a jovem Scout nos apresenta a rotina de Maycomb e seus moradores. Ela nos conta sobre suas férias; sobre Atticus e Jem; sobre seu amigo Dill; sobre o misterioso vizinho Boo Radley; sobre a meiga vizinha da frente, Srta. Maudie; e sobre a negra Calpúrnia,  que trabalha na casa de Scout  e é considerada como parte da família. Essa primeira metade é recheada de sutilezas que nos lembram, nostalgicamente, das travessuras de infância.

Na segunda metade do livro, a história fica mais pesada. Atticus é designado para defender o negro Tom Robinson. E a cidade de Maycomb, por causa disso, vira de cabeça para baixo. Os moradores não se conformam de Atticus defendê-lo. Afinal, na mente dos cidadãos de Maycomb, as palavras “negro” e “criminoso” se confundem, são sinônimas. Antes mesmo do julgamento, Tom já é considerado culpado. A cidade, que antes mostrava seu tradicionalismo e preconceito de forma bastante tímida, passa a fazê-lo com toda a força. Ela o escancara.  E nem mesmo Jem e Scout, apenas crianças, ficam livres da hostilidade. Afinal de contas, eles são os filhos Atticus– o homem que, ao escolher defender um negro, se torna o traidor de seu próprio povo.

“Eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isso pode até acontecer.”

O que eu achei do livro:

Muitos livros se ocuparam em trazer a temática “racismo” para suas páginas, mas poucos foram tão tocantes como O sol é para todos” é. E isso se deve ao fato de a história conseguir aliar elementos muito importantes:

  • a narrativa é feita do ponto de vista de um criança;
  • traz uma mensagem inspiradora sobre justiça, igualdade e direitos humanos;
  • fala de infância e de amadurecimento;
  • traz personagens marcantes e cheios de profundidade (como Atticus, Scout, Jem, Calpúrnia, Tom Robison, Boo Radley, etc.);
  • tem uma linguagem concisa e simples, própria das crianças;
  • possui um estilo de escrita inovador, claro e envolvente.

O sol é para todos é um clássico americano. Carrega uma história linda e inteligente, bem própria dos livros clássicos. Mas, ao mesmo tempo, ele é um livro tão gostoso de ler, com uma linguagem tão prática, que nem parece ser um clássico.

Eu amo clássicos, mas confesso que muitos são trabalhosos de ler. Porque, apesar de bem escritos, a linguagem costuma ser difícil e o ritmo lento. O sol é para todos é o oposto de tudo isso. Você senta e quer lê-lo inteiro, de uma só tragada.  O que seria um erro. O ideal é ler com calma, porque, apesar de linguagem ser de fácil entendimento, a mensagem e as entrelinhas são de uma riqueza imensa. Sem dúvida, é preciso de tempo e reflexão para compreendê-las.

“Só existe um tipo de gente: gente”

Em suma, “O sol é para todos” é um livro que deveria ser lido por todas as pessoas. Eu o li em julho e, posso afirmar, foi uma das minhas melhores leituras do ano e, muito mais do que isso, uma das  melhores leituras da vida.

Espero que esta resenha tenha inspirado você, caro leitor, a também se aventurar nesta magnífica história. Você não vai se arrepender.

Nota: 6/6 – Obra -Prima

Nome do Livro: O sol é para todos (em inglês “To kill a Mockingbird”

 tradução literal “Matar um rouxinol”)

Autora: Harper Lee

Editora: José Olympio

Número de páginas: 349

 

  • Luciano

    Em 04.11.2016

    Muito perspicaz sua resenha, principalmente a sacado do foco narrativo, que, per si, altera a semiótica dos fatos encadeados, já que sob os olhos da infância. BJ.

  • Bruna Pezzan

    Em 04.11.2016

    Fico feliz que tenha gostado! Obrigada 😍