Resenha: Os 13 porquês (Jay Asher)

Em 12.10.2017   Arquivado em LITERATURA

Sinopse:

 Ao voltar da escola, Clay Jensen encontra na porta de casa um misterioso pacote com seu nome. Dentro, ele descobre várias fitas cassetes. O garoto então ouve as gravações e se dá conta de que elas foram feitas por Hannah Baker – uma colega de classe e antiga paquera -, que cometeu suicídio duas semanas atrás.
Nas fitas, Hannah explica que existem treze motivos que a levaram à decisão de se matar e que Clay é um desses motivos. Agora, ele precisa ouvir tudo até o fim para descobrir como contribuiu para esse trágico acontecimento.

Se você ainda ouviu falar do livro – e, mais especificamente, da série – Os 13 porquês, eu sinto lhe informar: você vive no mundo da lua ou é um silvícola.  O fato é que, assim que a Netflix disponibilizou os 13 episódios da série em seu catálogo, a internet não falou em outra coisa. Os 13 porquês foram a grande sensação do momento, atraindo diversas discussões e questionamentos. E não é para menos: o livro, tal como a série, trata de um assunto polêmico e negligenciado, o suicídio.

Hannah Baker, a nossa protagonista, é uma adolescente de 16 anos que, após uma série de infortúnios, resolve “fazer com que tudo pare”. Ela resolve dar fim a sua própria vida.

O suicídio, ao menos para Hannah, se torna a ultima ratio: a resposta final que, então, encontra eco na sua dor.

Hannah teve motivos para fazer o que fez. 13 motivos. Ela não deixou cartas de despedidas e nem mesmo bilhetes explicativos. Sem tradicionalismos para Hannah. Ela, na verdade,  deixou fitas cassetes. Cada fita, em ambos os lados, possui um áudio.  Nesses áudios, Hannah confessa e esclarece quais foram as 13 razões que contribuíram para que ela cometesse suicídio.

As fitas formam uma espécie de jogo. Hannah quis assim. Ela desejava que cada pessoa que lhe fez mal, que cada “motivo” escutasse as fitas e, assim, compreendesse qual papel desempenhou naquele contexto. O contexto de sua morte. As fitas devem ser repassadas entre os destinatários.  Se algum deles se recusar a ouvir o que foi gravado,  há consequências. De acordo com Hannah, existe uma cópia das fitas. E estas poderão ser levadas a público. Basta que alguém não escute ou não repasse as fitas. As regras são apenas duas e são muito simples: ouvir e repassar. Só isso.

O livro se inicia no momento em que as fitas são enviadas a Clay – um colega e paquera de Hannah.

Clay está muito confuso porque não entende como pode ter contribuído para a morte da colega. Ele gostava muito dela e nunca, nunca mesmo, tratou-a de forma má ou desrespeitosa.

Clay será o nosso ouvinte. Enquanto ele escutar as fitas de Hannah, nós também escutaremos.  “Ao vivo e em estéreo”.

Nesse sentido, é perceptível que o discurso do livro será formado por duas vozes e, portanto, por dois pontos de vista – um de Hannah  e um de Clay. Enquanto Hannah conta sua história, Clay – o receptor – reagirá. Em alguns momentos, ele vai aceitar o que está sendo dito; e em outros, vai questionar.

“Oi, é a Hannah. Hannah Baker. Não ajuste seu… seja lá o que estiver usando para ouvir isso. Sou eu, ao vivo e em estéreo. Sem promessa de retorno, sem bis e, dessa vez, sem atender a pedidos. Pegue um lanche. Acomode-se. Porque eu vou contar a história da minha vida. Mais especificamente, por que minha vida terminou. E se você está ouvindo essa fita, você é um dos porquês.”

 

O que eu achei do livro:

A intenção do livro é demonstrar o quanto nossas ações podem assumir proporções desastrosas. Tudo que falamos ou fazemos afeta, direta ou indiretamente, um terceiro. Este terceiro vai receber a informação ou a ação de acordo com o seu filtro, que é a sua forma de ver e interpretar o mundo.

Quando você diz ou faz algo mau, essa palavra ou ação pode significar PARA VOCÊ só uma brincadeira boba. Mas, para o outro, pode significar muito mais do que isso.

Nós dificilmente saberemos qual o contexto ou, ainda, qual a bagagem de vivência e experiência de alguém. Logo, é necessário ter muita cautela. Até mesmo porque uma maldosa e boba brincadeira pode desencadear, pouco a pouco e via de consequência, acontecimentos muito mais sérios.  É o chamado efeito bola de neve.

O livro também chama atenção para uma coisinha simples, mas que costuma estar ausente na maioria das relações humanas: a empatia. Será que nós, ao menos de vez em quando, nos colocamos no lugar do outro?  Será que tentamos compreender a forma como esse “outro” está se sentindo?  Pare e reflita:  quantas vezes você já esteve, figurativamente, na pele de alguém?  Eu garanto a você que serão poucas. Pouquíssimas. O individualismo sempre fala mais alto.

Hannah Baker, em diversos pontos da narrativa, nos conta como ela tentou pedir ajuda. Algumas vezes, o pedido foi muito explícito. Em outras, nem tanto. Mas os sinais estavam todos lá. Pode ter certeza: se uma pessoa está cogitando cometer suicídio, existirão sinais. Isolamento, alteração drástica de comportamento ou visual,  soltar frases de alarme ligadas ao suicídio (“não aguento mais”, “minha vida não vale a pena”, etc.), demonstrar tristeza ou desinteresse pela maioria das coisas,  ter mudanças repentinas de humor, etc. Esses são os sinais que demonstram que uma pessoa não está bem e que pode, sim, estar pensando em suicídio.

Quando uma pessoa pede ajuda, de forma explícita ou implícita, escute. Importe-se. Ajude. Não absorva frases como essa: “fulano só quer chamar a atenção”.

Se uma pessoa não está bem, ela não vai conseguir ser positiva. Ela não vai ser divertida. Ela pode estar na cidade mais linda do mundo, na festa mais animada ou, ainda, no show de rock mais incrível – ela pode estar em qualquer lugar e mesmo assim se sentir infeliz e sozinha.

Quando você ouve um pedido de ajuda e julga ou não faz nada,  você também contribui para o sentimento de tristeza daquela pessoa. Você faz com que ela se sinta ainda mais invisível. E isso é um problema sério. Não custa nada ser empático, tentar compreender e dar importância. Gestos de amor e de carinho são muito bonitos.  Nós devíamos realizá-los com maior frequência.

Oferecer ajudar nem sempre será uma tarefa fácil. Nem sempre a pessoa que precisa ser ajudada vai querer ser ajudada. Em alguns casos, a depressão é tão profunda que aquela pessoa não vai conseguir confiar em ninguém – ninguém mesmo. Mesmo nesses casos, você tem que dar o seu melhor. Você tem que dar importância. Você tem que tentar ajudar ou, então, buscar uma ajuda especializada.

Se os colegas, pais ou professores de Hannah tivessem escutado quando ela pediu ajuda, uma morte poderia ter sido evitada.

O suicídio nunca deveria ser uma opção. Mas ele é. Não adianta fechar os olhos e fingir uma realidade que não existe, ainda que ela seja mais confortável. Não adianta lavar as mãos e não fazer nada a respeito. Devemos compreender que cada um é um. E cada um reage a um acontecimento de forma diferente. Cada pessoa foi moldada por aquilo que viveu ou presenciou, bem como pela forma que foi educada. Estar com depressão, sentir -se triste e, ainda, admitir estar cogitando cometer suicídio não é sinônimo de fraqueza. Você não é fraco ou menos capaz por isso.

Todos nós estamos sujeitos a, por impulso e em algum momento,  cogitar o suicídio. Tire toda sua esperança e mate a sua finalidade precípua para vida.  O que sobra?  Nada. Por isso mesmo, é que a empatia é tão importante.

Eu gostei muito, muito mesmo, de “ Os 13 porquês“. Tanto do livro, como da série.

O livro é narrado de uma forma super inusitada. Desde o começo, já sabemos que Hannah está morta. Mas, mesmo assim, ela é a voz principal da história. Clay complementa o discurso, reagindo àquilo que lhe é contado. Conseguimos sentir e entender tudo aquilo o que ele sente. É como se estivéssemos na cabeça do personagem.  E isso é incrível.  O livro já valeria a pena só pela forma como a história é contada.

Eu consegui compreender Hannah. Entendi seus motivos. E – ainda que tenha a julgado no início do livro –  eu tive uma opinião completamente diferente ao final. Hannah não foi fraca e nem teve motivos infantis ou bobos para fazer o que fez. Hannah estava doente. Hannah precisava de ajuda. Não podemos jamais culpar a vítima por algo que ela não tem controle ou culpa.

Quando terminei Os 13 porquês, eu não estava feliz. Eu me sentia triste, angustiada, e, também, reflexiva. É uma história que coloca o leitor para pensar, haja vista que discute assuntos polêmicos e importantíssimos: Bullying, depressão, estupro e o suicídio – assuntos que, portanto, merecem ser levantados e discutidos. O suicídio, em especial,  não pode ser um tabu. É necessários que sejamos capazes de falar sobre ele, lidar com ele e, o mais importante, aprender a como evitá-lo.

A série e o livro têm algumas diferenças entre si, mas a essência do conteúdo é a mesma.

A série aprofunda um pouco mais a história dos personagens secundários. Dá a eles um passado. O livro não faz isso.

Na série, os pais de Hannah estão processando o colégio da filha em razão de seu suicídio. Eles acreditam que os orientadores e professores tinham condição de  perceber o que estava acontecendo e, mesmo assim, foram negligentes – não fizeram nada.  Esse processo não existe no livro.

Na série, Hannah comete suicídio cortando os pulsos. A cena é muito forte, na minha opinião. Ver a reação dos pais dela ao se depararem com o corpo da filha … foi tão real. E tão triste. Doloroso. Acho que a palavra é essa.

No livro, Hannah comete suicídio por meio de uma overdose de remédios.  Acredito que os produtores optaram por trocar os remédios pelo corte nos pulsos justamente para deixar a cena mais temerosa e chocante.  E eles foram bem sucedidos nesse aspecto, porque repito: foi uma cena dolorosa de assistir. De verdade.

A leitura de Os 13 porquês não é fácil. E isso não se deve a palavras difíceis ou parágrafos confusos. Isso se deve à densidade da história – que é  triste, sentimental, árida e pungente. Tudo isso ao mesmo tempo.

 

A nota que dou para esse livro é, portanto, 5/6. É um livro excelente. Uma leitura que todos, antes de julgamentos apressados, deveriam fazer.

Não acho que é um livro (ou série) que romantiza o suicídio. O suicídio já é romantizado por si só. Quando não falamos a respeito e abertamente, estamos jogando suspense, criando expectativas. Romantizando. Precisamos tratar o suicídio da forma como ele é: um dado real, concreto e preocupante no mundo. Precisamos conversar sobre isso.

 

 

Nome do livro: Os 13 porquês;

Autor: Jay Asher;

Editora: Ática;

Páginas: 256.

 

 

  • Váh

    Em 12.10.2017

    Eu não sou de acompanhar seriado, mas esse eu tive que assistir e acho que todo mundo deveria. Ou ler o livro né não.
    Me identifiquei com várias situações que a Hannah vive na história. Acho que as pessoas precisam entender que o que pra um não significa nada pra outro significa o mundo.
    Devemos nos colocar no lugar do outro, ao menos tentar.
    Belo post Bruna, como sempre!

    https://heyimwiththeband.blogspot.com.br/

  • Bruna Pezzan

    Em 12.10.2017

    Eu também consegui me identificar. Eu já tive depressão em algumas épocas da minha vida e – olhando para trás – eu, hoje, consigo perceber os mesmos sinais da Hannah naquela Bruna.

    Eu concordo com você! Empatia é algo muito forte e importante, mas muito raro. Quantas tragédia poderiam ser evitadas se as pessoas se colocassem mais no lugar do outro de vez em quando? Eu acho que muitas.

    Gostei do seriado, embora tenha feito mais de uma tentativa quando decidi assisti-lo. Os primeiros episódios foram fracos. Mas me surpreendi – em especial com o show de atuação dos pais da Hannah na cena do suicídio da personagem.

    O livro é maravilhoso, Val! Você devia dar um chance. Acho que pode gostar.

    Fico muito feliz que tenha gostado do post. Foi tão especial poder escrevê-lo. Gostei tanto do livro que quis caprichar!

    Beijão <3 <3