Resenha: As Horas Distantes (Kate Morton)

Em 07.07.2017   Arquivado em LITERATURA

 

Sinopse:

Uma carta entregue com 50 anos de atraso é o ponto de partida de As horas distantes, novo romance da australiana Kate Morton, autora de A casa das lembranças perdidas e O jardim secreto de Eliza. Intrigada com a reação da mãe ao receber a carta, assinada por uma certa Juniper Blythe, Edie Burchill passa a procurar respostas para os enigmas que envolveram a juventude de Meredith Baker. Intercalando as incursões de Edie ao passado da mãe, uma jornada que a leva à Segunda Guerra, e relatos sobre as excêntricas irmãs Blythe, a autora engendra uma trama repleta de segredos que conduz a um final surpreendente.

 

Sobre a história:

Edie Burchill  trabalha com editorial. Ela é uma espécie de arqueóloga da literatura. Ama o universo dos livros e ama descobrir o que está por trás deles, isto é, como uma história conseguiu chegar ao seu maior receptor: quem a escreve.

Edie e sua mãe, Meredith, vivem nas superficialidades da boa convivência. Existe uma confortável distância emocional entre ambas. E Edie nunca conseguiu compreender muito bem o porquê disso.

Quando a sua mãe é surpreendida, em um almoço de domingo, por uma carta extraviada de 50 anos atrás (enviada durante o período da segunda guerra mundial por uma tal de Juniper Blythe), Edie começa a suspeitar que talvez a mãe esconda um segredo.

Meredith (a mãe de Edie) tinha apenas 13 anos quando, no estouro da segunda guerra, foi evacuada de Londres e transportada para o campo. Lá, ela é acolhida pela excêntrica família Blythe e passa a viver no castelo de Milderhurst.

A família Blythe é formada por três irmãs e pelo pai destas, o renomado escritor Raymond Blythe (autor do livro fictício  “A Verdadeira História do Homem de Lama“). Juniper é a filha mais nova, enquanto Percy e Saffy (as gêmeas) são as irmãs mais velhas.

Quando Edie, intrigada, pesquisa sobre o conteúdo da carta recebida pela mãe, ela descobre mais sobre o passado desta. O período mais misterioso da vida de  Meredith  é justamente aquele em que ela viveu entre os Blythe, em Milderhurst. E é por isso mesmo que Edie, cinquenta anos mais tarde, é atraída para o castelo e para as (agora) idosas irmãs Blythe. Estas nunca se casaram e, tampouco, deixaram Milderhurst. Continuam no castelo… juntas e envelhecendo.

Embora Edie só estivesse buscando respostas para o passado mãe, ela vai se deparar com um mistério muito mais premente. As pedras de Milderhurst têm história. Os segredos de cada habitante estão lá, entranhados no castelo … apenas aguardando para que, um dia, alguém os revele.

 

 

O que eu achei do livro:

Kate Morton constrói várias tramas paralelas. Estas, determinado momento, se encontram e, juntas, formam uma história. Um todo lógico e coeso.

Normalmente, a primeira trama se encontra no presente, enquanto que a segunda se encontra no passado.

Não dá para negar que suas obras possuem uma alta dose de dramaticidade. São riquíssimas. Muito bem escritas, com figuras de linguagem inteligentes e de uma coesão e desenvolvimento impecáveis. O tipo de discurso narrativo que a autora usa – discurso indireto livre – deixa a leitura ainda mais prazerosa e instigante.

Kate demonstra em seus livros a força do “fatalismo”. Os erros que cometemos no passado irão, uma hora ou outra, cobrar o seu preço. Nem sempre será justo. Ás vezes, um erro  irá perdurar por gerações, espalhando seus infortúnios e enganos. É como se existisse um efeito dominó: ações dos pais atingem os filhos e, então, os netos e, assim, sucessivamente.

As suas histórias não são completamente felizes ou esperançosas. Na verdade, são trágicas (no melhor estilo “O Morro Dos Ventos Uivantes”). Mas são surpreendentes. Brilhantes. Geniais.

As Horas Distantes foi um livro que me deixou embasbacada. Em algum momento próximo do final, eu já conseguia imaginar O QUE tinha acontecido. Mas, então, nas últimas páginas Kate começa a descrever COMO aconteceu. E, gente, que reviravolta incrível. Não consegui encontrar pontas soltas. De verdade. Fiquei de queixo caído.

Eu amei tudo em As Horas Distantes. O clima sombrio, o suspense e os personagens. Gostei muito de Edie e adorei conhecer de perto a personalidade das irmãs Blythe. Há de se convir que estas são personagens profundas e maravilhosamente bem construídas.

Desde o prólogo do livro, quando a escritora transcreve um trecho de A Verdadeira História do Homem de Lama (livro fictício, escrito pelo personagem Raymond Blythe –  o pai das irmãs Blythe), eu já tive a sensação de que estava diante de uma história muito boa. E, algumas páginas mais tarde, essa sensação foi confirmada: eu estava diante de uma obra estrondosa.

Não existem elogios suficientes para esse livro de Morton. Eu realmente amei! Tudo o que a autora escreve é brilhante, mas este livro conseguiu superar todas as expectativas. Portanto, a minha nota para ele é 6/6 (OBRA – PRIMA!).

VALE A PENA LER. MUITAS VEZES.

Nome do livro: As Horas Distantes;

Autora: Kate Morton;

Editora: Rocco;

Páginas: 639.

 

Resenha: O Jardim Secreto de Eliza (Kate Morton)

Em 13.04.2017   Arquivado em LITERATURA

Sinopse:

“Em 1913, um navio chega à Austrália direto de Londres, trazendo com ele uma menina de quatro anos, absolutamente sozinha, sem um acompanhante adulto sequer. Com ela, apenas uma pequena mala com um livro de contos de fadas. O mistério de quem era a bela garota, que dizia não lembrar seu nome, e de como chegou ao porto, jamais foi desvendado. Em suas memórias ela trazia apenas a imagem de uma mulher que ela chamava de a dama ou a Autora e que dizia que viria buscá-la.
Muitos anos depois, em 2005, na cidade australiana de Brisbane, a doce e reservada Cassandra herda de sua avó Nell uma casa na Inglaterra. Surpresa, ela descobre que a casa esconde as origens de sua avó –  que foi uma vez a bela menina sem nome perdida no porto.
A autora, Eliza Makepeace, uma travessa menina contadora de histórias que tinha sua própria cota de tragédias para viver na Inglaterra da virada do século XIX para o XX. Seria Eliza mãe de Nell? E por que ela a abandonou? Agora, é a vez de Cassandra revirar a pequena mala de segredos da avó e saber o que Nell conseguiu descobrir, se é que ela obteve sucesso em sua busca.”

O Jardim Secreto de Eliza foi  a primeira obra que eu li de Kate Morton.  Até então, nunca tinha ouvido falar da escritora. E mal eu sabia o quanto estava perdendo com isso!

Admito que, em épocas de livros comerciais e de pouca originalidade, conhecer escritoras como Morton é um bálsamo para a alma. Ao fim da leitura de O Jardim Secreto de Eliza, eu estava  de queixo caído. Há muito eu não lia uma obra tão capaz de, verdadeiramente, me surpreender.

A partir deste livro, eu me apaixonei pela literatura de Morton. E confesso: já fiz um estoque das obras dela aqui em casa. Acabou de chegar, pela Saraiva, mais três volumes publicados pela escritora.

Em O Jardim Secreto de Eliza, nós acompanhamos a trajetória de três personagens femininas: Eliza, Nell e Cassandra.  Todas elas são mulheres fortes e com demônios a lidar.

Eliza, também chamada de “A autora”, teve uma infância difícil. Perdeu a mãe muito nova e teve que trabalhar desde cedo para sustentar a si e ao irmão gêmeo. Sobrevivendo em um cenário pouco amistoso – a fria Inglaterra do séc. XIX – Eliza tecia, em sua imaginação, um mundo (no mínimo) mais interessante e mais mágico do que o real.  Não é à toa que, quando cresceu, ela foi denominada de “A Autora”. Se tinha algo que Eliza sabia fazer era inventar e contar histórias. E ela era muito boa nisso.

 Nell vê o mundo cair quando seu pai revela que ela não é sua filha verdadeira. Há muito tempo, a menina foi deixada num porto australiano com apenas uma mala de couro que, por sua vez, continha um único livro de conto da fadas.  Quando perguntaram quem ela era, a garota disse não saber. Na verdade, a única lembrança que possuía era de uma bonita mulher, a quem chamava de “Autora”.

Cassandra, a neta de Nell, é uma mulher angustiada. No passado, ela passou por uma triste experiência que deixou algumas cicatrizes. Quando a sua avó morre, Cassandra recebe de herança um chalé campestre na Inglaterra. Perplexa ao saber que a avó tinha um imóvel tão longe de casa (elas moravam juntas em Brisbane, Austrália), a jovem  decide partir para Londres e, assim,  refazer os passos da avó e descobrir as origens desta.

Morton, dessa forma, vai tecendo três histórias paralelas: a história de Eliza, na Inglaterra Vitoriana e Edwardiana, a história de Nell, em 1913,  e a de Cassandra, nos anos 2000.   E é claro que essas histórias, ainda que diversas e distantes, irão se encontrar em algum momento na linha do tempo.

 ” O jardim secreto de Eliza, conta Kate Morton, foi inspirado em uma história de família: quando tinha 21 anos, sua avó soube que não era filha biológica de seu suposto pai. Ela foi tão profundamente afetada por essa notícia que jamais contou isso a ninguém até chegar à velhice, quando revelou tudo para as três filhas. A escritora prometeu criar uma história inspirada no caso da avó.”

O que eu achei do livro:

Sem a menor dúvida, O Jardim Secreto de Eliza foi um dos melhores livros que li  nos últimos tempos. A narrativa de Morton é fluída, rica em detalhes e  cheia de simbolismos.

 

O livro trata de assuntos densos.  Entre eles, está a busca da identidade. 

É preciso dar o crédito à Kate. Ela conseguiu, de fato,  interligar  três histórias que se passam em linhas temporais muito distintas. E o fez espantosamente bem! Nas palavras de qualquer outro escritor,  essa façanha poderia dar lugar ao desastre – a narrativa poderia ficar confusa e embaçada. Mas, felizmente, não foi isso o que aconteceu. A história manteve a clareza necessária e se tornou ainda mais interessante.

Podemos dizer que esta obra de Morton mistura romance, magia e mistério. Sem a menor dúvida, nas entrelinhas  do livro, existe uma intensa análise da natureza humana.  A magia, por outro lado, está presente especialmente em dois momentos: quando a narrativa se volta para os contos de fada de Eliza ou quando ela se volta para o maravilhoso jardim secreto da personagem.   Há passagens sombrias e há passagens mágicas. Simples assim. 

 

A personagem que mais me chamou a atenção foi Eliza. Ela é complexa, independente e vanguardista. Tem uma personalidade muito forte. Consegui me identificar.

 

Por todas as razões apontadas, Kate Morton passou a ocupar um lugar de destaque nos meus interesses literários. Já existem mais três livros dela na prateleira. E eu não vejo a hora de lê-los.

Nota:  5/6 – excelente. 

Nome do livro: O Jardim Secreto de Eliza;

Autora: Kate Morton;

Editora: Rocco;

Páginas: 560.

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