Resenha: Sobre Meninos e Lobos (Dennis Lehane)

Em 16.08.2016   Arquivado em LITERATURA

Li “Sobre meninos e lobos” (em inglês, “Mystic River”)  há poucos meses atrás e gostei muito. Achei esse livro bastante original, haja vista que ele trata a temática “crime” e “criminoso” de uma forma diversa e inovadora. Por isso, não podia deixar de resenhá-lo aqui para vocês.

A história do livro começa em 1975. Temos três personagens principais: Sean, Jimmy e Dave.

No primeira etapa do livro, somos apresentados à infância destes três garotos. Jimmy e Dave vivem em um bairro pobre chamado Flats, enquanto Sean mora no Point, um bairro de classe média. Desde logo, portanto, é perceptível que a realidade financeira de Sean, em relação aos dois outros garotos, é contrastante, o que torna a amizade deles difícil.

Os garotos se conheceram em razão de o pai de Sean e o pai de Jimmy serem colegas de trabalho. Como os pais se encontram todos os fins de semana para tomar uma cerveja no quintal de casa, a amizade entre os meninos acaba florescendo.

Jimmy é muito impulsivo, o oposto de Sean que é o “bom senso” do trio. Com medo de desapontar os pais que sempre ralaram para lhe dar o melhor, Sean costuma ponderar suas ações. Já Dave é muito tímido e retraído. Afetado pela ausência do pai e pela instabilidade mental da mãe, Dave é um “maria vai com as outras”. Ele jamais irá contrariar os amigos. Tudo o que deseja é ser querido por Jimmy e por Sean. Ele acha Jimmy o máximo, pois aplaude todas as travessuras e gruda no amigo – nas palavras de Lehane –  “como se fosse um esparadrapo” .

A mãe de Sean não aprova a amizade do filho com os meninos, especialmente com Jimmy. Ela vê em Jimmy um quê de delinquência. Sean, por outro lado, não liga para isso: para ele Jimmy é seu amigo. E isso é tudo o que importa.

O momento-chave do livro ocorre em uma tarde de verão. Os garotos, nesse dia, resolvem ir brincar na rua. Como estão entediados, Jimmy começa a imaginar que seria legal se eles pudessem dirigir um carro ali mesmo, pelo quarteirão. Com isso em mente, ele lança uma ideia aos meninos: eles poderiam furtar um carro só para se divertir um pouco, não poderiam? Afinal de contas, ali no Point, na rua de Sean, é comum os vizinhos deixarem as chaves dentro do porta-luvas ou até mesmo na ignição. Tudo o que eles precisariam fazer é pegar as chaves, dar uma volta com o carro pelo bairro, e depois estacioná-lo no mesmo local de antes. Fácil.

Sean, por outro lado, fica um pouco receoso com o que os pais achariam dessa ideia. Por isso, ele a rejeita. Jimmy fica irritado com a covardia do amigo e começa a brigar com ele no meio da rua. Dave, como o grande admirador de Jimmy, toma o partido deste na briga.

Os socos e chutes dos meninos são interrompidos pela rápida visão de um carro, com dois passageiros, descendo a rua ao encontro deles.  Do carro sai um homem grandalhão, que se apresenta como policial, e censura os meninos por estarem brigando no meio da rua. Olhando atentamente para os três, eles pergunta  aos garotos se eles moram naquele rua do Point mesmo. Dave, diferente do amigo Jimmy, não consegue mentir. O homem, então, promete ter uma conversa séria com a mãe de Dave e o manda entrar no carro. Ele, não sem hesitar, entra no carro. E, assim, os homens levam Dave.

 Logo após esse episódio, os meninos contam o que aconteceu para o Sr. Devine, pai de Sean, que questiona aos meninos se o carro era mesmo da policia . Ora, os homens estavam uniformizados? Não. O carro continha o logotipo da polícia? Não. Eles mostraram algum distintivo? Bem, havia um distintivo dourado, mas sem a identificação usual da força de polícia.  Já adivinhando o pior, o senhor Devine liga para a delegacia e descobre que aqueles homens eram, na verdade, sequestradores. Assim, Jimmy e Sean fazem um retrato falado dos criminosos e, com isso, torcem para que Dave seja encontrado e volte para casa.

Ambos os meninos (cada um a seu jeito) se sentem culpados pelo o que houve com Dave. Culpados por não terem impedido o amigo de entrar no carro. Culpados por não terem entrado junto com ele. Eles traíram o amigo.

Três dias depois, milagrosamente, Dave é encontrado. Ninguém quer comentar o que aconteceu com ele, mas todos sabem: os sequestradores eram pedófilos e Dave foi molestado sexualmente. A mãe doente do menino fica feliz com a sua volta, mas não consegue quebrar a barreira imposta pelo o que aconteceu ao filho. Os amigos da escola de Dave zombam do rapaz, chamam -no de “bixa” e dizem que ele gostou do que aqueles homens fizeram com ele. E é assim que Dave passa sua adolescência: em um frenesi para acabar a escola secundária e em uma luta com os seus horrores internos.

O acontecimento daquela tarde de verão e os três dias seguintes a ela afetaram profundamente o Dave criança e o Dave adulto. Veja bem: a família se recusava a conversar com ele sobre o que aconteceu. Os amigos da escola zombavam. O trauma ficou e as consequências dele também.

Jimmy e Sean, apesar de não terem entrado no carro, também carregaram a lembrança daquela tarde na memória.

A segunda etapa do livro começa cerca de vinte e cinco anos depois. Os três rapazes já são adultos e estão  vivendo suas vidas. Apesar de não terem se falado mais depois do incidente daquela tarde, eles são obrigados a se reencontrar em razão de um acontecimento: a filha mais velha de Jimmy Marcus foi assassinada e seu corpo foi encontrado em um parque nos Flats, bairro em que ela morava.  Sean é o policial encarregado do caso de homicídio e Dave, uma das últimas pessoas a vê-la viva em um bar, é um dos principais suspeitos.

 Nessa segunda parte do livro, a narração acompanhará os esforços da polícia para solucionar o homicídio.  É comum, à primeira vista, nós acharmos que “Sobre meninos e lobos” é um tradicional livro policial, em que o foco está, justamente, em desvendar o crime. Entretanto, ele é muito mais do que isso. A questão central é, ao contrário, o psicológico e as escolhas dos personagens.

Sean é um policial competente, mas que teve alguns problemas em seu relacionamento conjugal que afetaram, profundamente, o seu trabalho.

Jimmy é um ex-criminoso. Por muito tempo, foi chefe de uma quadrilha, mas acabou preso. No meio tempo em que ficou na prisão, duas coisas aconteceram: o nascimento de sua filha Kate e a morte da sua esposa doente.  Por isso, assim que Jimmy saiu da cadeia, ele se viu às voltas com uma criança órfã de mãe aos dois anos de idade. A sua filha. Uma filha que ele mal conhecia, mas que precisava dele. E isso foi o suficiente para ele querer tornar-se um homem decente. Trabalhou, casou-se de novo, teve mais duas filhas e construiu uma cafeteria nos Flats.   E agora, anos depois, a sua joia, a sua Kate, foi assassinada. Jimmy tenta colar os cacos que sobraram de si mesmo.

Dave terminou a escola e trabalhou duro. Casou-se e teve um filho. Mas os dois grandes “lobos” que o roubaram (de si mesmo) naquela tarde nunca o abandonaram realmente. Aqueles três dias continuam vívidos em sua memória e ele precisa lidar com os danos que foram feitos.

Nesse sentido, “Sobre meninos e lobos” tenta demonstrar como uma situação mal resolvida pode ser desastrosa. Se não resolvermos o passado, ele volta à nossa porta para cobrar o seu preço.

Em síntese, eu posso dizer que esse livro narra a história de meninos que foram perseguidos por lobos. Tão perseguidos que nunca conseguiram se livrar  completamente dos lobos… até o momento em que os lobos passaram a se confundir com os próprios meninos.

Assim que terminei de ler essa obra de Lehane, eu pensei: “poxa! Que livro real!”. Porque é assim que ele é: um livro inteligente, intenso, sutil e… real. O final é triste. Mas eu acho que ele é adequado para os personagens. Apesar de ser triste e de eu desejar, desesperadamente, que fosse outro, ele se encaixa perfeitamente na história e em suas entrelinhas.

Uma das coisas que mais me surpreendeu foi a forma como Lehane encarou e descreveu a figura do criminoso: ele saiu do clichê e demonstrou que o criminoso nem sempre é o sociopata frio e impiedoso. Criminosos nem sempre são monstros. Muitas vezes, eles são como nós, embora escolham maneiras ruins (e ilegais) de lavar sua honra e resolver seus dilemas.

Termino essa resenha dizendo que quase todos deveriam ler esse livro. Ele, apesar de triste, é original. A narração, na minha opinião, é inteligente e a história, além de muito bem contada, tem uma lição real e interessantíssima. LEIAM!

PS: Nos EUA, o livro se chama “Mystic River” em homenagem a um rio que é importante para alguns acontecimentos da história. Embora o título em português seja muito diferente (Sobre Meninos e Lobos), ele não decepciona.É sagaz e sintetiza bem a mensagem do livro. Para ser honesta, este foi um dos raros casos em que achei o título brasileiro melhor do que o título original.

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